
Entre janeiro de 2014 e junho de 2017, durante a gestão do ex-governador Pedro Taques, cerca de 52 mil interceptações telefônicas clandestinas foram feitas, segundo investigações. Da esquerda para a direita da foto, Airton Siqueira, Pedro Taques, Zaqueu Barbosa, Evandro Lesco, Gerson Corrêa e Paulo Taques
Montagem g1
A Justiça de Mato Grosso absolveu, nessa quinta-feira (3), o ex-governador do estado Pedro Taques e o primo dele, o ex-secretário da Casa Civil Paulo Taques, acusados de envolvimento no suposto esquema de interceptações clandestinas que se tornou conhecida como ‘Grampolândia Pantaneira’.
As investigações apuraram fatos ocorridos entre janeiro de 2014 e junho de 2017, durante a gestão do ex-governador, resultando em aproximadamente 178 mil páginas, entre físicas e digitais. Foram cerca de 52 mil interceptações telefônicas feitas neste período.
Os demais investigados, os coronéis da Polícia Militar Zaqueu Barbosa, Evandro Lesco, Airton Siqueira Júnior e o cabo da Polícia Militar Gerson Correa Júnior também foram absolvidos.
Na época, o Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) denunciou os suspeitos e pediu a condenação do grupo por prática de ato de improbidade administrativa com ressarcimento aos cofres públicos. A ação solicitava ainda, o bloqueio de bens dos denunciados em R$ 355,5 mil, bem como a condenação para pagamento de multa por dano moral coletivo.
A juíza Célia Regina Vidotti julgou a ação improcedente e afirmou que, embora as condutas dos acusados sejam consideradas graves, não há comprovação da intenção em causar danos aos cofres públicos.
“É certo que para a configuração do ato de improbidade administrativa exige-se mais do que mera irregularidade ou ilegalidade; a conduta do agente público deve estar permeada de abuso, má-fé e com a finalidade específica de tirar proveito para si ou para outrem e deve causar efetivo prejuízo ao bem comum”, diz trecho da decisão.
O esquema
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O esquema dos grampos foi denunciado em uma reportagem do Fantástico em maio de 2017. Segundo a denúncia, mais de 100 pessoas tiveram as conversas grampeadas, entre elas, políticos de oposição ao atual governo estadual, advogados, médicos e jornalistas. Os telefones foram incluídos indevidamente em uma investigação sobre tráfico de drogas. Paulo Taques deixou o governo dias antes do esquema vir à tona.
Exceto Pedro Taques, todos os suspeitos foram presos durante a operação. Já o coronel Zaqueu foi o único a ser condenado. A 11ª Vara Criminal Especializada da Justiça Militar condenou Zaqueu a oito anos de prisão em regime semiaberto.
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Denúncias do esquema
O promotor de Justiça Mauro Zaque, que comandou a Secretaria de Segurança Pública em 2015, denunciou o caso à Procuradoria-Geral da República, afirmando que havia alertado o governador Pedro Taques sobre a existência de um “escritório clandestino de espionagem” por meio de dois ofícios. O primeiro chegou a ser enviado para o MPMT, mas a investigação foi arquivada por falta de provas.
O segundo ofício, que o governador alega nunca ter recebido, foi protocolado na Casa Civil, mas cancelado no mesmo dia e substituído por outro, conforme apontou auditoria da Controladoria Geral do Estado. Antes do relatório da CGE vir à tona, Pedro Taques chegou a entrar com representação contra Zaque em instituições como o Conselho Nacional do Ministério Público e a PGR, acusando-o de falsificação de documento público.
O próprio Paulo Taques, alegando estar sofrendo ameaças, pediu à Secretaria de Segurança para que fossem investigados um jornalista, uma ex-secretária e uma ex-amante dele.
Em depoimento encaminhado à PGR, o ex-secretário Mauro Zaque afirmou que, em 2015, época em que ainda estava no governo, ouviu o coronel Zaqueu Barbosa, comandante da PM à época, dizer que as interceptações telefônicas eram feitas por determinação de Pedro Taques. Zaque alega ainda que levou o assunto ao governador, que ficou constrangido, mas não fez nenhum comentário.
Paulo Taques (à esquerda) e o primo Pedro Taques (à direita)
Lucas Ninno/Gecom-MT