
Um oficial da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) ouvido pelo blog diz que um dos objetivos era identificar se a CIA incentivava campanha contra o acordo de Itaipu. Funcionário da Abin relatou à PF que suposto ataque hacker ao governo paraguaio era para obter vantagens nas negociações de Itaipu. Alexandre Marchetti/Itaipu Binacional
Vista aérea da usina – Alexandre Marchetti/Itaipu Binacional – Divulgação
A espionagem da Abin no Paraguai tinha como um dos focos identificar se agentes estrangeiros, ou agências de espionagem de outros países, especialmente a CIA, estavam incentivando, ou até mesmo financiando a campanha para o endurecimento do acordo do uso da hidrelétrica de Itaipu. A informação é de uma fonte da Abin, que pediu anonimato.
A revisão do acordo teria impactos na produção industrial do Brasil por conta do aumento do preço da energia, diminuindo a competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional.
Uma informação que vazou de um inquérito tocado pela Polícia Federal (PF) causou um incidente diplomático. Um servidor da Abin relatou no depoimento uma suposta invasão aos sistemas do governo paraguaio com a intenção de obter vantagens nas negociações de Itaipu.
Já a versão da fonte ouvida pelo blog dá um caráter de defesa dos interesses nacionais, e não de uma espionagem para obter vantagens.
Campanha de ONG
De acordo com a fonte, o que chamou atenção da Abin foi a campanha liderada por uma ONG, que também foi monitorada. Segundo o relato, palestras do Centro para a Democracia, a Criatividade e a Inclusão Social (Demos) eram realizadas em espaços sob administração americana.
A ONG Demos fazia campanha pública para cobrar do Brasil o que considerava uma “divida espúria” relacionada à Itapu Binacional.
No dia 8 de abril de 2019, a Demos promoveu uma palestra em que expôs as estratégias para alcançar seus objetivos: suscitar simpatia no exterior, cultivar aliados, criar uma consciência nacional e gerar empatia. Um dos pontos sugeridos no encontro era evitar o discurso anti-brasileiro para conseguir apoios até dentro do Brasil.
Suposta interferência dos EUA
A conferência ocorreu no Teatro de las Américas del CCPA, em Assunção, no Paraguai. O local é gerido por um Comitê Executivo integrado por paraguaios e norte-americanos em igualdade de número, como mostra o site do teatro.
Isso originou a desconfiança de que os EUA poderiam estar turbinando a campanha, que teria reflexos na indústria do Brasil, aumentando custos com energia e diminuindo a competitividade de produtos brasileiros no comércio internacional.
A Demos é uma organização fundada pelo cientista político Miguel Carter. Ele sustenta que o Paraguai deixou de ganhar US$ 75,4 bilhões com os acordos da Itaipu. Carter defende que o Paraguai possa vender o excedente de energia produzido por Itaipu para outros países, e não apenas para o Brasil. O que também enfraqueceria a indústria nacional. Um dos discursos de Cárter é o de que o acordo empobrece o Paraguai e enriquece a indústria paulista.
Nas apresentações, todas públicas, ele usa imagens da história bíblica de David derrotando Golias. No caso, David é o Paraguai e Golias, o gigante derrotado, é o Brasil.
Ataque hacker
Paraguai convoca embaixadores e cobra explicações sobre suspeita de espionagem da Abin
Além da suspeita de interferência estrangeira, um funcionário da Abin relatou à Polícia Federal uma suposta invasão aos sistemas do governo paraguaio com a intenção de obter vantagens nas negociações de Itaipu, o que gerou atrito entre os países e suspendeu negociações.
As informações sobre a acusação do ataque hacker foram publicadas pelo portal UOL, e a TV Globo teve acesso a trechos do depoimento. O caso gerou protesto do governo paraguaio, que cobra explicações do Brasil, e informou que paralisou as negociações sobre a comercialização da energia gerada por Itaipu.