
Especialistas ouvidos pelo g1 listam série de obstáculos econômicos e políticos para o governo até 2026. Poder de compra da população, juros altos e falhas na comunicação são preocupações centrais. Quaest: desaprovação do presidente Lula chega a 56% e é a maior do mandato
As mais recentes pesquisas de opinião mostram o declínio da popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). São dados que vêm na esteira de fatores econômicos e políticos desafiadores para o governo, a pouco mais de um ano e meio das eleições de 2026.
Além da disparada no preço dos alimentos — que elevou a insatisfação de grande fatia do eleitorado —, especialistas ouvidos pelo g1 apontam falhas na comunicação e problemas de estratégia entre os aspectos que ajudaram a aumentar o sentimento negativo de parte da população.
A condução das contas públicas e a insatisfação do mercado financeiro também pesam para o balanço final da avaliação de Lula. Nessa conta, entram a inflação, a consequente queda no poder de compra dos brasileiros e os juros em níveis elevados, com a taxa Selic hoje a 14,25%.
O governo tem adotado medidas, como a de facilitar o acesso ao crédito e tentar conter a alta dos alimentos. Também apresentou projeto para isentar do Imposto de Renda (IR) quem ganha até R$ 5 mil por mês e conceder descontos àqueles que recebem até R$ 7 mil.
Os esforços, no entanto, podem não surtir o efeito esperado no humor do eleitorado, avaliam cientistas políticos.
As ações podem não ser suficientes, de fato, para desafogar o bolso da população. A análise é que os incentivos podem até trazer um alívio momentâneo, mas o desafio será mitigar os impactos econômicos da elevação de gastos públicos.
Leia nesta reportagem:
A queda na popularidade de Lula
Como cenário atual e contexto histórico ajudam a explicar baixa
Medidas do governo vão ajudar a melhorar avaliação do eleitor?
Os desafios e o que esperar para a reta final até 2026
Lula no Planalto em 12 de março de 2025
Evaristo Sa/AFP
A queda na popularidade de Lula
A pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira (2) mostra que o governo do presidente Lula é desaprovado por 56% dos brasileiros (em janeiro, eram 49%) e aprovado por 41% (eram 47%). Essa é a maior rejeição do mandato. Veja abaixo.
Já a última pesquisa Ipsos-Ipec, divulgada em 13 de março, aponta que 41% dos brasileiros avaliam o atual governo Lula como ruim ou péssimo, enquanto 27% o consideram ótimo ou bom. Foi a primeira vez neste mandato que o instituto indicou avaliação negativa superior à positiva.
Entre dezembro de 2024 e março deste ano, houve crescimento de 7 pontos entre os insatisfeitos com a gestão petista. Veja no gráfico abaixo.
Um mês antes, pesquisa Datafolha indicou que o presidente alcançou seu pior nível de aprovação em todos os seus três mandatos (24%), além de uma reprovação (41%) também recorde.
Conforme o g1 mostrou na ocasião, 8 pontos podem justificar a queda na popularidade de Lula, incluindo a crise do PIX — que gerou uma onda de fake news sobre a fiscalização do meio de transferência —, a disparada nos preços dos alimentos e a atuação eficaz da oposição.
Cenário atual e contexto histórico ajudam a explicar baixa
Comunicação
Diante dos desgastes, o governo nomeou, em janeiro, Sidônio Palmeira como novo ministro da Secretaria de Comunicação. Marqueteiro de Lula na campanha de 2022, ele assumiu após avaliação do Planalto de que a queda na popularidade seria resultado, principalmente, de dificuldades na comunicação.
Sidônio atualizou a linguagem das redes sociais de Lula e passou a apostar na comparação da gestão do presidente com a de Jair Bolsonaro (PL), com o intuito de tentar convencer o eleitorado de que o país está em um processo de melhora.
O novo ministro tem atuado também para dar visibilidade a ações positivas do governo, como as altas do Produto Interno Bruto (PIB) em 2023 e 2024, o aumento real do salário mínimo, a geração de empregos e a baixa taxa de desemprego.
“Por mais que a comunicação tenha se tornado mais efetiva, ainda não gerou resultado nesses 3 meses da gestão de Sidônio”, analisa Cristiano Noronha, vice-presidente da Arko Advice.
Segundo o cientista político, ainda há chances de que o governo consiga reverter a situação. Isso irá depender de uma série de fatores, como ações que garantam sensação de melhora no poder de compra da população.
Inflação e disparada dos alimentos
Em 2024, a inflação estourou o teto da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e fechou o ano a 4,83%. A meta era de 3% e seria considerada cumprida se ficasse em um intervalo entre 1,5% e 4,5%.
Com alta de 7,69%, o preço dos alimentos foi o que mais se destacou no período. Itens básicos foram atingidos, como o café, que subiu quase 40% no ano passado. Além disso, o subgrupo Alimentação no domicílio avançou 8,23% no ano, com o aumento no preço da carne (20,8%) como destaque.
e da esquerda para a corrida ao Palácio do Planalto.
O aumento de preços afeta, em especial, os cidadãos de baixa renda. Diante disso, Lula afirmou estar preocupado com a disparada dos alimentos, e disse que não descarta uma medida mais drástica para conter os preços.
Recentemente, o governo decidiu zerar o imposto de importação sobre carne, café, milho e outros produtos para tentar reduzir a inflação. A medida passou a valer em 14 de março.
Para especialistas ouvidos pelo g1, no entanto, a isenção deverá ter pouco impacto na inflação do Brasil, já que muitos dos alimentos acompanham os preços internacionais e outros países também têm enfrentado quebras de safra.
Para o cientista político Carlos Melo, professor do Insper, mesmo que a inflação dos alimentos tenha sido impactada por fatores globais e de safra, esse é o principal causador do mau humor recente do eleitorado.
“Não importa [para a população] se o ovo está mais caro por uma gripe aviária ou por motivos de ordem internacional. Alimentação mais cara mexe com o bolso do trabalhador, e isso atinge fortemente o humor das pessoas que precisam comer e têm restrições orçamentárias”, diz.
O economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, destaca que, embora a variação nos preços dos alimentos nos dois primeiros anos do governo Lula tenha sido menor do que no mesmo período do governo Bolsonaro, a alta atual partiu de um nível já bastante elevado.
“Dados trimestrais do IPCA [inflação oficial do país] também mostram que, na base anualizada, os preços estão mais altos agora no Nordeste, onde Lula tem um eleitorado importante”, diz. “Bahia e Sergipe tiveram variações muito relevantes, o que ajuda a explicar em alguma medida essa perda de popularidade.”
Disparada do dólar
Além dos problemas climáticos em 2024 — que prejudicaram a produção —, a disparada do dólar também foi determinante para a alta dos alimentos. O real desvalorizado encarece itens importados e torna a exportação mais atrativa para produtores locais. Isso diminui a oferta no mercado interno e os preços sobem.
O último salto do dólar ocorreu em novembro, em meio à reação do mercado financeiro ao pacote de corte de gastos apresentado pelo governo. Mesmo com economia prevista de R$ 70 bilhões até 2026, o anúncio foi ofuscado pela proposta para ampliar a faixa de isenção do Imposto de Renda — que diminuiria a arrecadação do governo.
Além disso, entrou na conta o efeito Donald Trump, que, eleito, já prometia a aplicação de tarifas sobre produtos importados pelos Estados Unidos, aumentando o temor nos mercados de que a inflação subiria em todos os países afetados.
A moeda norte-americana disparou de R$ 5,67 em 6 de novembro para R$ 6,17 no último pregão do ano, encerrando 2024 com uma alta acumulada de 27,35%.
Insatisfação do mercado financeiro
O cenário refletiu também a insatisfação do mercado financeiro em relação à forma como o governo conduz as contas públicas. Investidores esperam que o governo corte gastos para gerar superávit primário (receita maior do que despesas) e, assim, reduza a dívida bruta do país, hoje em 75,3% do PIB.
O mercado tem apontado, no entanto, para uma falta de medidas efetivas para o controle das contas.
Levantamento da Genial/Quaest divulgado em 19 de março indica que agentes do mercado financeiro desaprovam a gestão de Lula. Segundo a pesquisa, Lula tem avaliação negativa de 88% e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de 58%.
Os receios do mercado financeiro se refletem no dólar — e, consequentemente, na inflação e na taxa básica de juros, a Selic — da seguinte forma:
Sem cortar gastos, o país tem uma perspectiva menor de controle da dívida pública;
Um país mais endividado tem uma probabilidade maior de não cumprir com seus compromissos financeiros, e se torna mais arriscado;
Um país mais arriscado só se torna atrativo se pagar juros mais altos pelos títulos;
Com países mais seguros pagando juros mais altos no exterior, o Brasil fica menos atrativo;
Se o Brasil está pouco atrativo, os investidores tiram dólares do país, enfraquecendo o real.
Para Noronha, da Arko Advice, o mercado pode “não eleger” — ou seja, não ser maioria no eleitorado —, mas suas reações acabam “azedando o sentimento geral” da economia no país.
“O mercado vê uma agenda de gastos do governo indo na contramão do que o Banco Central precisa, que é frear a economia para reduzir a inflação”, diz.
Contexto histórico — e capital político consumido
A popularidade de Lula também está muito abaixo dos níveis registrados durante os primeiros dois mandatos do presidente. Em 2010, na reta final de seu segundo governo, a aprovação do petista chegou a 87%, conforme pesquisa Ibope publicada em dezembro daquele ano.
“Do período em que Lula teve essa popularidade tão recorde até agora, passamos por alguns problemas, por exemplo, durante a gestão [da ex-presidente] Dilma [Rousseff], com grandes questões políticas, fiscais e econômicas”, lembra Noronha, da Arko.
No histórico, o cientista político destaca ainda o impeachment de Dilma e o descontentamento da população, que resultou em uma série de protestos pelo país, além da Operação Lava Jato e do escândalo do mensalão.
“Então, isso abalou muito a imagem do PT e do Lula. Relembro essa história porque Lula acabou perdendo e consumindo muito do capital político que ele construiu lá atrás”, acrescenta Noronha, destacando ser muito difícil recuperar essa popularidade.
Medidas do governo vão ajudar a melhorar avaliação do eleitor?
Três principais medidas foram adotadas recentemente pelo governo na tentativa de melhorar a popularidade:
A facilitação do acesso ao crédito, com a criação de um consignado para trabalhadores com carteira assinada do setor privado. Com o FGTS como garantia, o governo prevê que a taxa de juros caia cerca de 40%, quase a metade do que é cobrado atualmente.
A isenção de impostos de importação sobre alimentos como carnes, café, milho, azeite, açúcar e outros, com o objetivo de reduzir os preços.
A isenção do Imposto de Renda (IR), a partir de 2026, para quem ganha até R$ 5 mil por mês, além de desconto parcial e regressivo (ou seja, que cai conforme a renda aumenta) àqueles que recebem até R$ 7 mil. Essa era uma promessa de campanha de Lula.
Segundo especialistas ouvidos pelo g1, ainda é difícil prever se as medidas vão se refletir na melhora da avaliação do governo ou, em última instância, em votos em 2026.
Carlos Melo, do Insper, acredita que, até a próxima eleição, Lula deverá anunciar novas medidas como a de isenção do IR e do consignado CLT.
“São medidas que tentam pegar o público de menor renda. E isso será o suficiente? É difícil dizer”, afirma. “As pessoas que não têm FGTS não são favorecidas. Quem não declara IR, porque tem uma informalidade muito grande, também não será beneficiado.”
“O governo, então, vai ter que encontrar um meio de chegar a esse público também”, acrescenta Melo, dizendo que outro reflexo pode ser a elevação de juros, o que também leva à impopularidade. “Por isso, o governo está em uma situação difícil.”
Noronha, da Arko Advice, afirma que qualquer medida para aumentar o poder de compra e a renda das pessoas tende a gerar reflexos positivos na imagem do governo. “O ponto é: em um primeiro momento, pode trazer um alívio. Mas, depois disso, podem vir as consequências negativas.”
“Ou seja, tende a aumentar o juro, elevar o mau humor do mercado e influenciar o câmbio. E as pessoas sentem muito o impacto disso”, continua.
O economista André Galhardo, por outro lado, vê as medidas como a isenção do IR e o consignado CLT como positivas.
“É claro que a questão fiscal é importante e que precisamos, sim, nos preocupar com o equilíbrio das contas públicas. Isso é inegociável e já está andando. No entanto, a isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil vem em boa hora — ou até atrasada”, diz, reforçando a necessidade de um imposto progressivo, no qual o aumento da cobrança acompanha o avanço da renda.
Para Galhardo, o consignado para trabalhadores com carteira registrada também vem em um bom momento. “As pessoas que precisam tomar empréstimo para quitar obrigações mais caras ou para fazer um pequeno investimento tomariam crédito de qualquer jeito. Elas seguem pagando taxas devastadoras.”
Os desafios e o que esperar para a reta final até 2026
Em 2022, Lula foi o primeiro brasileiro a conquistar nas urnas um terceiro mandato presidencial. Ele ainda não definiu se tentará reeleição em 2026, mas segue como o principal nome do PT e da esquerda para a corrida ao Palácio do Planalto.
O cientista político Carlos Melo afirma que quem ocupa a cadeira da Presidência costuma ter muito poder eleitoral, diante da capacidade de movimentar recursos que os outros candidatos não têm. Mas destaca que o governo teve que manter os gastos elevados no início do mandato, o que acaba diminuindo a margem para a reta final, mais perto da eleição.
“Foi um momento muito complicado, depois de uma pandemia, com aumento da desigualdade”, diz.
“Além disso, o governo não fez ajustes na racionalização da máquina pública e na melhora da qualidade dos gastos. Então, não vai para os últimos dois anos de mandato, que é o período eleitoral, com o caixa cheio.”
André Galhardo, da Análise Econômica, afirma que os gastos do governo também cresceram em meio à PEC da Transição e ao pagamento de precatórios (dívidas decorrentes de decisões judiciais). “Os gastos com o BPC também estão crescendo rapidamente. Isso é um problema que o governo precisa resolver”, diz.
Outro desafio é a taxa Selic, prevista para chegar a 15% neste ano — o que compromete o crescimento econômico em 2026, gerando uma dinâmica mais complicada em termos de receita do governo.
“Aí, claro, tem que bloquear, contingenciar ou congelar gastos para cumprir o que está no disposto no arcabouço fiscal [a regra para as contas públicas]”, conclui Galhardo.