Por que previsões de terremotos falham tanto


Nas redes sociais, um autoproclamado ‘previsor’ de terremotos diz que consegue prever grandes tremores, mas especialistas afirmam que é pura sorte. Por que previsões de terremotos falham tanto
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Brent Dmitruk se autodenomina um “previsor” de terremotos.
Em meados de outubro, ele disse às suas dezenas de milhares de seguidores nas redes sociais que um terremoto atingiria em breve o ponto mais ocidental da Califórnia, ao sul da pequena cidade costeira de Eureka, nos EUA.
Dois meses depois, um tremor de magnitude 7,3 atingiu o local ao norte da Califórnia — colocando milhões de pessoas sob alerta de tsunami, e aumentando o número de seguidores de Dmitruk, que confiaram nele para prever o próximo abalo sísmico.
“Então, para as pessoas que menosprezam o que eu faço: como vocês podem argumentar que é apenas uma coincidência? É preciso ter muita habilidade para descobrir para onde os terremotos vão”, afirmou ele na véspera do Ano Novo.
Mas há um problema: os terremotos não podem ser previstos, dizem os cientistas que estudam o fenômeno.
É exatamente essa imprevisibilidade que os torna tão perturbadores. Milhões de pessoas que vivem na costa oeste da América do Norte temem que o “Big One” (que significa “O Grande”) possa acontecer a qualquer momento, alterando paisagens e inúmeras vidas.
O terremoto de Northridge, em Los Angeles, que matou 57 pessoas e feriu milhares de outras, em 1994, foi o abalo sísmico mais mortal nos EUA na memória recente
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Lucy Jones, sismóloga que trabalhou para o Serviço Geológico dos EUA (USGS, na sigla em inglês) por mais de três décadas, e é autora de um livro chamado The Big Ones, concentrou grande parte de sua pesquisa nas probabilidades de terremotos e na melhoria da resiliência para resistir a esses eventos cataclísmicos.
Desde que começou a estudar terremotos, Jones conta que sempre houve pessoas querendo uma resposta para quando o “Big One” — que significa coisas diferentes, em regiões diferentes — vai acontecer, e alegando ter desvendado a questão.
“A necessidade humana de criar um padrão diante do perigo é extremamente forte, é uma resposta humana bastante normal ao medo”, diz ela à BBC. “No entanto, isso não tem nenhum poder de previsão.”
Com cerca de 100 mil terremotos registrados no mundo todo a cada ano, de acordo com o USGS, é compreensível que as pessoas queiram ser avisadas.
A região de Eureka, uma cidade costeira a 434 quilômetros ao norte de San Francisco, onde ocorreu o terremoto de dezembro, registrou mais de 700 terremotos somente no último ano — incluindo mais de 10 apenas na última semana, segundo os dados.
A região, onde Dmitruk adivinhou corretamente que haveria um terremoto, é uma das “áreas sismicamente mais ativas” dos EUA, de acordo com o USGS. Sua volatilidade se deve ao encontro de três placas tectônicas, uma área conhecida como Junção Tripla de Mendocino.
É o movimento das placas em relação umas às outras — seja acima, abaixo ou ao lado — que causa o acúmulo de estresse. Quando a tensão é liberada, pode ocorrer um terremoto.
Adivinhar que um tremor aconteceria aqui é uma aposta fácil, diz Jones, embora um terremoto forte, de magnitude sete, seja bastante raro.
O USGS destaca que houve apenas 11 terremotos deste tipo ou mais fortes desde 1900. Cinco deles, incluindo o que Dmitruk promoveu nas redes sociais, ocorreram na mesma região.
Embora o palpite estivesse correto, Jones afirma à BBC que é improvável que qualquer terremoto — inclusive os maiores, que devastam a sociedade — possa ser previsto com precisão.
Segundo ela, há um conjunto complexo e “dinâmico” de fatores geológicos que levam a um terremoto.
A magnitude de um terremoto é provavelmente formada à medida que o evento está ocorrendo, Jones explica, usando o ato de rasgar um pedaço de papel como analogia: o rasgo vai continuar a menos que haja algo que o interrompa ou retarde — como marcas de água que deixam o papel molhado.
Os cientistas sabem por que ocorre um terremoto — movimentos repentinos ao longo de falhas geológicas —, mas prever este evento é algo que, segundo o USGS, não pode ser feito, e algo que “não esperamos descobrir em um futuro próximo”.
A agência observa que pode calcular a probabilidade de terremotos em uma região específica dentro de um determinado número de anos — mas isso é o mais próximo que eles conseguem chegar.
Os registros geológicos mostram que alguns dos terremotos de maiores proporções, conhecidos como “Big Ones” pelos moradores locais, acontecem com certa regularidade. Sabe-se que a zona de subducção de Cascadia desliza a cada 300 a 500 anos, devastando regularmente a costa noroeste do Pacífico com megatsunamis de 30,5 metros de altura.
A falha de San Andreas, no sul da Califórnia, também é fonte de outro potencial “Big One”, com terremotos devastadores ocorrendo a cada 200 a 300 anos. Especialistas afirmam que o “Big One” pode acontecer a qualquer momento em qualquer uma das regiões.
Jones conta que, ao longo de sua carreira, milhares de pessoas a alertaram com previsões de um grande terremoto — inclusive indivíduos na década de 1990, que enviavam faxes para seu escritório na esperança de fazer um alerta.
“Quando você recebe uma previsão toda semana, alguém vai ter sorte, certo?”, diz ela rindo. “Mas isso geralmente subia à cabeça deles, e eles faziam mais 10 previsões que não estavam certas.”
Esta situação parece ter acontecido com Dmitruk, que não tem formação científica. Há muito tempo ele prevê que um terremoto incrivelmente grande atingiria o sudoeste do Alasca, o Japão ou as ilhas da costa da Nova Zelândia, com uma magnitude tão forte que, segundo ele, poderia interromper o comércio global.
O USGS afirma que uma previsão de terremoto precisa ter três elementos definidos — uma data e hora, o local e a magnitude do tremor — para ser útil.
Mas o cronograma de Dmitruk continua mudando.
Em um determinado momento, ele disse que o terremoto ocorreria imediatamente antes ou depois da posse do presidente dos EUA, Donald Trump.
Depois, ele anunciou que aconteceria, sem dúvida, antes de 2030.
Embora esse terremoto de grandes proporções ainda não tenha ocorrido, Dmitruk afirma que ainda acredita que vai acontecer.
“Não acredito que seja apenas por acaso”, diz Dmitruk à BBC. “Não é aleatório ou sorte.”
Este tipo de pensamento é comum quando se trata de terremotos, de acordo com Jones.
“Distribuições aleatórias podem parecer ter padrões, vemos constelações nas estrelas”, ela observa.
“Muita gente tem muito medo de terremoto, e a maneira de lidar com isso é prever [quando] eles vão acontecer.”
Como você pode se preparar diante da incerteza de um terremoto
No entanto, o fato de não ser possível prever quando vai acontecer um terremoto, não significa que você deva estar despreparado, segundo especialistas.
Todos os anos, na terceira quinta-feira de outubro, milhões de americanos participam da maior simulação de terremoto do planeta: The Great Shake Out, que pode ser traduzida como “a grande sacudida”.
O exercício foi criado por um grupo do Centro de Terremotos do Sul da Califórnia, que incluía Jones.
Durante a simulação, as pessoas praticam a orientação de “se abaixar, se cobrir e aguardar”: elas se ajoelham, se protegem sob um objeto resistente, como uma mesa, e se mantêm assim por um minuto.
O exercício se tornou tão popular desde sua criação que se espalhou pela costa propensa a terremotos para outros Estados e países.
Se estiverem ao ar livre, as pessoas são aconselhadas a ir para um espaço aberto longe de árvores, edifícios ou linhas de transmissão de energia. Perto do oceano, os moradores praticam fugir para terrenos mais altos depois que o tremor cessa, para se preparar para a possibilidade de um tsunami.
“Agora, enquanto o solo não está tremendo, enquanto não é uma situação muito estressante, é realmente o melhor momento para praticar”, afirma Brian Terbush, gerente do Programa de Terremotos e Vulcões da Divisão de Gerenciamento de Emergências do Estado de Washington, nos EUA.
Além das simulações, os moradores dos Estados da Costa Oeste americana usam um sistema de alerta telefônico mantido pelo USGS, chamado ShakeAlert.
O sistema funciona por meio da detecção de ondas de pressão emitidas por um terremoto. Embora não possa prever quando um terremoto vai ocorrer em um futuro distante, ele fornece um alerta com segundos de antecedência que podem salvar vidas. É a coisa mais próxima de um “previsor” de terremotos que foi inventada até agora.
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