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A superpopulação de capivaras na Grande Florianópolis virou uma questão de saúde pública. O animal é considerado vetor do carrapato-estrela, principal transmissor da febre maculosa. Em janeiro, Palhoça registrou um caso da doença e decretou situação de emergência após um surto de carrapatos. O problema também atinge regiões da capital catarinense.
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Palhoça decretou situação de emergência após ‘surto’ de carrapatos em capivaras – Foto: Instagram/Sou Pedra Branca/@soupedrabranca/ND
A região do Lago da Pedra Branca, em Palhoça, foi afetada pela proliferação de carrapatos e precisou ser interditada na segunda-feira (24), para a aplicação de inseticida. O local concentra um grande número de capivaras.
A situação de emergência no município foi decretada no dia 31 de janeiro, após um morador ser identificado com febre maculosa. ““A superpopulação de capivaras tem trazido esse problema. As pessoas acabam alimentando elas, não identificando ser um animal silvestre”, afirma o prefeito do município, Eduardo Freccia.
No Itacorubi, bairro na região central de Florianópolis, moradores relataram a “invasão” dos animais em setembro do ano passado. O fato gerava preocupação, com a presença das capivaras em vias públicas, ocasionando a destruição de canteiros, jardins e trazendo riscos de doenças.
O que explica a invasão de capivaras na Grande Florianópolis?
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Desequilíbrio da cadeia alimentar está entre os principais fatores que geram a superpopulação de capivaras – Foto: Pixabay/Reprodução
Segundo o biólogo do IMA (Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina) Daniel Costa, entre os principais fatores que geram a superpopulação de capivaras, estão o desequilíbrio da cadeia alimentar, em que as capivaras não tem predadores na região, como onça-pintada, jacaré e outros. “Por serem animais com alta taxa de fecundidade e fertilidade, a população aumenta muito”, afirma.
A aproximação do perímetro urbano, por sua vez, seria um instinto de sobrevivência das capivaras. “São animais que se adaptam a presença humana, sobrevivendo perto e inclusive dentro das cidades, normalmente próximos à água, como observado aqui em Florianópolis”, enfatiza Costa.
Entre as medidas de controle, Costa cita que o manejo da reprodução da capivara pode ser trabalhado em várias áreas, passando pelo abate, proteção, captura e esterilização, que pode afetar o comportamento da espécie. “Por isso, é necessário avaliar com mais estudos e técnicas alinhadas com a realidade dos fatos”, complementa.
O controle populacional através da caça ou do abate do animal, por se tratar de uma espécie nativa, não é permitida. Para o biólogo Maurício Graipel, especializado em mamíferos aquáticos, é preciso pensar em formas de minimizar os problemas, considerando que a população de capivaras vem crescendo e vai continuar.
“Cada vez mais espécies que não eram comuns estão se aproximando de áreas urbanas e se adaptando a essas condições, porque encontram alimentos, água e abrigo”, analisa.
O que os municípios fazem para controlar a situação?
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O controle populacional através da caça ou do abate do animal, por se tratar de uma espécie nativa, não é permitido – Foto: Arteris Litoral Sul/Divulgação/ND
Florianópolis
Em resposta à reportagem do ND Mais, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável informou que está acompanhando de perto a situação das capivaras na cidade.
“No momento, a Secretaria avalia medidas de controle populacional e estruturou um grupo de trabalho intersetorial para tratar do tema com a coordenação de uma especialista na área”, afirma.
Palhoça
A administração municipal de Palhoça, em conjunto com a Associação dos Moradores do Bairro Pedra Branca e a Defesa Civil, realizaram a interdição provisória da região do Lago da Pedra Branca, para aplicação de inseticida. O local gerava preocupação e foi alvo de cobranças por parte do Ministério Público de Santa Catarina, que solicitava ações da gestão pública.
Além disso, a prefeitura afirmou que outras ações de combate à superpopulação de capivaras precisam de autorização do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Sobre realizar ações em outros pontos da cidade, a administração afirma que “não foi manifestada necessidade para esta questão em específico”.
São José
Em nota, a Prefeitura afirma que o município não tem superpopulação de capivaras e, no âmbito epidemiológico, “não recebeu nenhuma notificação de doenças relacionadas a presença do carrapato que se aloja na capivara, assim como a febre maculosa”.
Biguaçu
A Prefeitura Municipal de Biguaçu afirmou que, segundo a Vigilância Ambiental, não foi registrado surto de carrapatos no município.
Ibama realiza manejo após comprovação dos impactos
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No caso das capivaras, não há dados ou indicativos de desequilíbrio ambiental em SC – Foto: Grazielle Guimarães/ND
Segundo o Ibama, a secretaria de Meio Ambiente de cada município é responsável por cuidar da questão de saúde sanitária e do animal, o que inclui a retirada de carrapatos.
A instrução normativa do Ibama 141/2006 determina que a captura para intervenções, remoção ou eliminação de animais só deve ser realizada depois de esgotados todos os recursos municipais.
“Para isso, é necessária a comprovação de que a espécie está causando transtornos significativos de ordem econômica ou ambiental, ou dados que apontem para o risco à saúde pública”, ressalta.
A posição, no caso das capivaras, é de que, até o momento, não há dados ou indicativos de desequilíbrio ambiental ou de que a capacidade de suporte do ambiente atingiu o limite em Santa Catarina.
“Cabe ao instituto avaliar e autorizar as ações de manejo propostas. O manejo de capivaras em vida livre, normalmente envolve uma ou mais áreas da gestão pública, como saúde, agricultura, defesa civil, turismo e meio ambiente. ”, declara o órgão.
Os riscos à saúde pública
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Câmeras flagraram passeio de capivara no Aeroporto de Florianópolis – Foto: Floripa Airport/Reprodução/ND
Para o biólogo Daniel Costa, a situação levanta bastante preocupação em relação à saúde pública, pois a presença da capivara tem relação com a transmissão da febre maculosa, através dos carrapatos.
“Como a capivara acaba tendo esse ‘apelo simpático’, as pessoas acabam se aproximando muito. Devemos evitar o contato com as áreas em que há presença destes animais. Ainda temos o risco da capivara se sentir ameaçada e, apesar de raro, elas podem atacar como instinto de defesa”, conclui.
Como forma de prevenção a doenças, portanto, é recomendado que a população evite regiões com a presença do animal e, em locais como o Lago da Pedra Branca, evite se sentar diretamente na grama. Além disso, é essencial garantir que os animais de estimação estejam protegidos com medicamentos específicos contra pulgas e carrapatos.