
O governo brasileiro tem negado qualquer envolvimento em ação hacker da Abin no Paraguai e alega que a operação de inteligência contra a administração do país vizinho foi autorizada em junho de 2022, pela gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Nesta terça-feira (1º), o governo do Paraguai convocou o embaixador do Brasil em Assunção, José Antonio Marcondes de Carvalho, para prestar esclarecimentos.

Ação contra o país vizinho teria sido autorizada em 2022 – Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil/ Reprodução/ ND
O gesto é uma forma de demonstração de repúdio diplomático. O governo Santiago Peña também suspendeu as negociações relativas ao Anexo C do Tratado de Itaipu, que estabelece as normas para uso e venda do excedente de energia gerada pela usina hidrelétrica binacional, até que “tudo seja esclarecido”.
O embaixador Marcondes de Carvalho foi convocado a comparecer nesta tarde à chancelaria paraguaia. Ele recebeu do vice-chanceler, Víctor Verdún, uma cobrança formal de explicações. O governo Lula reconhece o caso de espionagem, mas diz que ele ocorreu durante o governo de Jair Bolsonaro e foi interrompido após a atual diretoria da Abin tomar posse, em março de 2023.
O governo Santiago Peña convocou uma coletiva de imprensa na residência oficial do presidente para falar da suspensão das negociações, após a suposta ação hacker da Abin no Paraguai ser revelada pelo portal UOL na segunda-feira (31).
O que se sabe sobre ação hacker da Abin no Paraguai
A reportagem do UOL afirma ter tido acesso ao depoimento de um agente de inteligência que contou detalhes de ação hacker da Abin no Paraguai à Polícia Federal. Servidores externos virtuais foram montados no Chile e no Panamá para promover ataques, e extrair dados de autoridades paraguaias, ligadas ao Congresso e à Presidência, contou o agente.

Governo brasileiro teria espionado Paraguai antes de fechar acordo com o presidente do país vizinho, Santiago Peña – Foto: Ricardo Stucker/PR
O objetivo da ação hacker da Abin no Paraguai era subsidiar a decisão no Brasil sobre a negociações relativas à tarifa de energia da Itaipu Binacional e ao Anexo C do tratado, que passou por revisão após 50 anos para estabelecer as condições de uso da energia e a venda do excedente paraguaio ao País. Segundo o UOL, o agente disse ter obtido dados de cerca de cinco pessoas, como logins e senhas.
Em nota divulgada na segunda-feira (31), o Itamaraty reconheceu que a ação hacker da Abin no Paraguai aconteceu, mas alegou que foi interrompida quando a direção da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), nomeada por Lula, tomou conhecimento do caso.
Itamaraty nega aval de Lula para operação.
“A citada operação foi autorizada pelo governo anterior, em junho de 2022, e tornada sem efeito pelo diretor interino da Abin em 27 de março de 2023, tão logo a atual gestão tomou conhecimento do fato”, disse o Ministério das Relações Exteriores. “O atual diretor-geral da Abin encontrava-se, naquele momento, em processo de aprovação de seu nome no Senado Federal, e somente assumiu o cargo em 29 de maio de 2023.”
“O governo do presidente Lula desmente categoricamente qualquer envolvimento em ação de inteligência, noticiada hoje, contra o Paraguai, país membro do Mercosul com o qual o Brasil mantém relações históricas e uma estreita parceria”, disse o MRE sobre a ação hacker da Abin no Paraguai.
“O governo do presidente Lula reitera seu compromisso com o respeito e o diálogo transparente como elementos fundamentais nas relações diplomáticas com o Paraguai e com todos seus parceiros na região e no mundo”, completou.

Abin é acusada de ação hacker contra o Governo do Paraguai – Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil
Negociações interrompidas
Em 21 de fevereiro, a secretária-geral das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha, viajou a Assunção e acertou um prazo para a assinatura do novo texto desse anexo do tratado. A previsão era concluí-lo até 30 de maio.
A reunião ocorreu entre as Altas Partes do Tratado, os ministérios das Relações Exteriores dos dois países. O presidente Peña participou. Em 16 abril de 2024, os países assinaram um acordo para estabelecimento da nova tarifa de energia – o “Entendimento entre Brasil e Paraguai sobre Diretrizes Relacionadas à Energia de Itaipu Binacional”-, cujos termos deveriam ser seguidos.
Conflitos entre Abin e Polícia Federal
A ação hacker da Abin no Paraguai revisitou uma antiga disputa entre as instituições investigativas do governo federal. À CNN, fontes de ambas as corporações afirmaram que o caso pode provocar danos à imagem brasileira no exterior.
Além disso, o ataque pode gerar questionamentos sobre a atuação da agência e ao inquérito que apura a realização de espionagem ilegal na Abin, durante o governo de Jair Bolsonaro (PL).
A divulgação da ação hacker da Abin no Paraguai causou desconforto na atual gestão da agência, que tem conflitos com a Polícia Federal desde o início da gestão. A PF vê indícios de crime na atuação da agência com base nos depoimentos.
*Com informações do Estadão Conteúdo.